quinta-feira, 29 de agosto de 2013

        Aquele olhar sereno que apaziguava qualquer calamidade. Aquele palavreado que de tão personalíssimo mais parecia uma nova língua. As duras e sinceras palavras que vazavam com a maior naturalidade. Os cabelos brancos denunciavam tanta vida e despreocupação em querer retardar a beleza que a velhice por si só tinha. As garrafinhas de 500 ml de pet com pinga dentro escondidas pela casa, deixava subentendida a ideia de que existem prazeres que de tão pessoais e necessários, são mantidos só com a gente. Não há porque o outro saber. Hoje a saudade bateu na minha porta, e o que eu tenho são as lembranças desse homem que me ensinou a extrair grandes sentimentos e belezas das pequenas coisas. Não consigo olhar para uma rapadura, e não me lembrar de você. Eu o vejo espalhado por aí em cor, verso e som. Embora a presença física esteja ausente, percebo que a sua presença não se materializa somente nas boas e singelas lembranças, mas em tudo que tenho contato (in) direto. Quisera eu ter metade da sua coragem para guiar tantas vidas. Mesmo sendo o caçula da prole, foi o arrimo, o chão, o consolo, a reserva e a fonte de ordem para os demais irmãos. Era destemido e com uma fé inabalável. Acordava às 5 da manhã para fazer as suas longas caminhadas pelos solos montesclarenses. Não se contentava com o ócio mesmo na velhice, fazia dela o trampolim para se manter vivo.  Casou-se aos 31 anos e teve 3 filhos. Superou a perda de um deles ainda recém nascido.  Na mocidade não era difícil não encontra-lo às sextas feiras em algum bar no quarteirão do povo, onde se reunia sempre com os seus amigos após as 18 horas. Durante toda a sua vida o Mercado Central também foi um dos seus locais favoritos. Sempre quis dar o melhor para os seus filhos, embora tivesse só o primário tinha uma inteligência capaz de surpreender qualquer pessoa. Deu ao seu filho a faculdade de Engenharia Mecânica, e o colocou na empresa que trabalhava. Ao chegar em casa após o desgaste do trabalho, se reunia com os familiares para ouvir os vinis de músicas caipiras de raiz e serestas, na casa da sua mãe na Vila Guilhermina. Era um homem essencialmente econômico, para não dizer pão duro. Carregava consigo o lema de uma letra de Gilberto Gil: “andar com fé eu vou, a fé não costuma faiá”.  Era um homem global capaz de discutir sobre uma vastidão de temas. Aproximou-se do protestantismo aos vinte e poucos anos, entretanto leu muito Allan Kardec. Foi um dos primeiros moradores a fundar o bairro São José.  Um dos seus maiores arrependimentos ao longo da vida foi de ter vendido a sua roça. Tinha um sistema peculiar para conduzir a vida, não se deixava levar por qualquer ideiazinha sorrateira, o porquê das coisas e os questionamentos eram infindáveis. Meu pai não seria quem é hoje se não fosse ele, eu não seria quem estou tentando ser, se não fosse ele. A lógica é esta. Durante o início da minha vida, enquanto meus pais trabalhavam, eu passava uma boa parte do tempo com ele e a minha vó.  Lembro-me das primeiras cipoadas que levei aos 5 anos de idade porque disse em bom tom palavrões aprendidos na escola. O primeiro estilingue foi ele que me deu. Religiosamente todos os dias assistíamos a Chaves, riamos das mesmas piadas sempre. O seu bom humor era incrível. Um piadista nato.  Tive o prazer de no escurecer da noite vê-lo montando uma emboscada para pegar um saruê que estava rondando no quintal. O seu quintal vasto e cheio de árvores era um mundo onde eu me reinventava. Ele era um amante dos banhos de chuvas. Eu que sou muito curioso, adorava me perder no seu universo.Eu adorava vê-lo cantar aquelas músicas antigas, inconscientemente ele era uma pessoa musical, que adorava o som de uma sanfona.  Era um crítico ferrenho da nova safra de músicos sertanejos dos anos 80 pra cá.  Todos os dias eu o via lendo alguma passagem bíblica. Discutia política como ninguém, sempre criticou o PT Não era um seguidor fanático querendo mudar concepções diversas das suas, criava mais pontes do que abismos.  Os seus conselhos são influências para o roteiro da minha jornada. Honestidade, bondade, hombridade, humildade, coragem e fé.  Tem quase 1 ano que você se foi, Vô, mas este texto nunca traduzirá quem foi você de fato para mim, pois palavras me faltam para expressar tamanha a minha estima em ter você como uma luz na minha vida que jamais se apagará.  Te amo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário